
Amigos,
Tive em minhas mãos hoje pela primeira vez Melodyne Editor com DNA (Direct Note Access) (já fazem quase 2 anos que anunciaram).
Adoraria fazer uma resenha completa sobre o programa, mas não só o assunto é muito longo como também é algo que gosto muito de falar sobre; então a probabilidade de sair um artigo de 15 páginas que ninguém vai ler é muito grande
.
Por conta disto, vou me concentrar apenas em comentar especificamente sobre a parte em que a grande maioria está interessada, que é sobre esta tecnologia DNA.
A tecnologia DNA
Num resumo rápido para quem não sabe do que estou falando: O melodyne (como o auto tune, waves tune etc) são softwares que tem como uma de suas principais funções fazer correções de pitch (afinação). Porém só era possível alterar o pitch do material completo, seja uma nota ou um acorde, da mesma maneira e na mesma intensidade.

A tecnologia DNA é justamente o rompimento desta barreira. O Melodyne Editor promete nos brindar com a possibilidade de alterar notas em sinais polifônicos de maneira independente. Exemplo simples: Se um violão toca o
acorde de C (tríade Dó, Mi, Sol), você pode alterar apenas a nota mi para Mi bemol e a nota Sol para uma oitava abaixo e transformar este acorde num Cm/G.
É algo que parecia um sonho, e hoje é realidade. Talvez represente uma das maiores revoluções de nossa indústria nos tempos atuais, juntamente com os samplers.
Análise do Sinal
De cara já tive uma grande bela surpresa: A detecção é muita boa com a configuração padrão, e o melhor de tudo, é rápido! Bem rápido!
Existem alguns parâmetros para configurar e melhorar o processo, como limitar o range do instrumento. Tudo vem para somar, mas você acabar deixando a música de lado e se transformando num cientista/pesquisador se perder muito tempo com eles.
Ainda existem alguns problemas, como por exemplo, o Melodyne parece que não entende muito bem quando tem que lidar com diferentes notas com o mesmo conteúdo harmônico, como quando temos a mesma nota em oitavas diferentes.
Ex: numa guitarra tocando o acorde básico de Am (Lá, Mi, Lá, Dó, Mi), o melodyne só identificou as notas Lá, Mi e Dó.
É um limitador sem dúvida, mas ainda assim não me desanima pois 99% das vezes, só o fato de termos acesso a terça e quinta do acorde já é ótimo!
Em outros casos, também tive problema de timing. Acordes que foram tocados com as cordas perfeitamente ao mesmo tempo, depois do processamento, as mesmas notas começaram a soar mais destacadas como se houvesse uma imprecisão do músico.
Sinceramente, isso não me espanta. Se levarmos em conta a complexidade da tecnologia e que demorou quase 2 anos entre a apresentação do produto na NAMM até o início das vendas, era mais do que esperado termos algumas limitações.
Qualidade de áudio
Bem…errr… uma má notícia. A primeira coisa que ficou clara é que depois que o áudio é transferido, analizado e “decodificado” pelo melodyne, mesmo que você não edite nada, existe uma alteração nada bem vinda ao áudio original.
Quando reparei isto no primeiro violão, até parei para testar em outros instrumentos a esperança de que fosse um problema especifico com o violão, mas nada feito. Mesma situação aconteceu com vibrafone, piano e um naipe de flautas.
E não precisa ter um ouvido muito apurado. De cara, é bem nítido uma perda nos agudos, acima dos 8kHz, que tira a nitidez de muitos instrumentos que tem transientes destacados.
Uma equalização corretiva pós-melodyne ajuda a reverter o processo, ainda que não seja a solução ideal.
Outro efeito colateral negativo (um pouco mais sério), é a perda de ataque. Ex: Uma guitarra funk perde bastante do seu punch e o som fica mais “macio”, sem aquele estalado característico.
Isto já é algo conhecido para quem trabalha bastante auto tune, waves tune e todos os outros processadores do gênero. E o Melodyne parece que também não conseguiu encontrar uma solução razável para teste problema.
FINALMENTE… EDITANDO MATERIAL
A interface é super simples, dispensa comentários.
Bem, depois de ver o milagre da multiplicação das notas na sua tela, fatalmente nos primeiros 5 minutos, você se sentirá uma criança com brinquedo novo, tentando fazer de tudo ao mesmo tempo sem muito objetivo… simplesmente quer apertar tudo e ver no que dá.
Passado a empolgação inicial, vem a dura constatação da realidade: Estamos experimentando uma tecnologia que ainda está a frente do nosso tempo.
Rapidamente começa-se a ouvir efeitos de modulação para todo lado, o famoso chorus, de todas as cores, tamanhos e modelos. Isto já faz com que você tenha que se restringir a poucos semitons para cima ou para baixo.
Ao tentar deletar algumas notas de um arpeggio, percebe-se que apesar de um resultado bem satisfatório, os transientes das notas continuam lá. Você ouve o estalo sem a nota em seguida, como se fosse um ghost note.
Resumo: O Melodyne faz tudo o que promete, de uma maneira muito simples e prática. Mas nada do que ele faça, tem qualidade de som impecável.
O resultado para ser considerado como aceitável ou não, fica dependendo do resto dos elementos de sua música.
Pode ser que nem metade do que estou mencionando acima seja audível por baixo do seu mix, e é bem provável também seja mascarado se você ainda pretende utilizar outros efeitos por cima como chorus, flanger, reverb, delay etc… etc…
Opinião Final
Como falei antes, é um passo importante no ramo da música e dou todo meu apoio a Celemony. Gosto de seus produtos, e gosto da sua audácia em nos disponibilizar algo como o Melodyne Editor. É algo pretensioso, mas de uma maneira positiva.
Pode ser usado em diversas situações, pode salvar você de muitos apuros quando você não tem mais músico disponível, ou quando resolve mudar algo em cima da hora. Para alterar loops prontos também é super bem vindo.
Você deve enxergar essa ferramenta como um “pronto-socorro”. Um remendo para casos emergenciais. Nem de longe, deve-se contar com ela nas etapas de sua produção.
Grifei a última frase, mas faço questão de repetir em negrito.
Nem de longe, deve-se contar com ela nas etapas de sua produção.
Num exemplo prático: Se alguém gravou um violão na sua música e, somente agora você notou que a corda sol estava um pouco desafinada, pode contar com Melodyne 3 DNA, pois é bem melhor ter um violão afinado com artefatos do que um violão maravilhoso e desafinado.
Agora, se durante uma gravação você ouve um violão desafinado e pensa “ah, deixa assim mesmo…depois eu passo no melodyne DNA e ele conserta”. Neste caso, você está correndo um sério risco de estar sendo negligente com seu trabalho.
Use com moderação!
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